Tive uma ótima professora de Antrpologia que, quando não conseguia explicar conceitos para a turma do terceiro semestre, soltava um "Ué, gente. Ethos é aquela coisa".
Demorou pra sacar o que o Bourdieu queria dizer e pra descobrir que a origem desse tal de ethos vinha mesmo do Norbert Elias. Mas "aquela coisa" como metodologia entrou na minha vida pra ficar.
Hoje li no Mais! uma pesquisa desse tipo. Um tal de Branko Milonovic, economista do Banco Mundial, escreveu junto com Peter Lindert e Jeffrey Williamson o trabalho "Measuring Ancient Inequality". A idéia "arrojada" era a de medir os índices de desigualdade das sociedades pré-industriais e compará-las com as das sociedades modernas. Para isso, usaram o índice de Gini, um indicador que mede a concentração de renda de um país.
O anacronismo galopante da pesquisa deu no que deu. A conclusão do estudo não poderia ser outra: "O que mostramos em nosso trabalho é que as sociedades modernas são, em média, muito menos exploradoras em comparação com as antigas", foi o que Milonovic afirmou em entrevista ao Mais!.
Loucuras metodológicas à parte - e elas são muitas -, o que salta aos olhos é o que o homem é capaz de fazer em nome da ciência pra legitimar a exploração intrínseca ao capitalismo.
Desde o meu encontro com os teóricos da escolha racional no semestre passado que eu não encontrava tamanha desonestidade no mundo intelectual. Esquerdismos à parte, explicar as desigualdades do mundo por uma fórmula que não se sustenta de pé é o que eu chamo de ideologias do capitalismo. É "aquela coisa". E muita gente engole sem nem mesmo mastigar.

Um comentário:
Bá... que texto fantástico. Tudo bem .... matede deixa para lá.
Bjcas e saudadocas.
Postar um comentário