Da seleção de filmes da 31º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os que eu mais queria ter visto eram os dos diretores africanos. Acabei abrindo a programação com "Pontapés", do simpático diretor holandês Albert ter Heerdt, que também assina o roteiro.
Fui seduzida pela sinopse, que apresentava o filme como "um olhar caleidoscópico sobre a Holanda nos dias atuais, um retrato espirituoso dos dilemas emocionais, medos, expectativas e mal-entendidos que existem numa sociedade multicultural".
A idéia do diretor era a de tratar os problemas que os imigrantes marroquinos enfrentam na Holanda. Conversando com a platéia -se é assim que devo chamá-la-, disse ter se inspirado em uma história real, na qual um diretor de um seriado da TV holandesa (que retratava a vida dos imigrantes marroquinos na Holanda), foi morto por um "fundamentalista islâmico" após dar uma declaração preconceituosa sobre os marroquinos à imprensa.
Apesar de retratar os problemas sócio-econômicos dos imigrantes, ao final da exibição, o que restou do filme foi a caricatura de dois mundos. Os marroquinos, divididos pela falsa dicotomia de preservar a sua cultura ou a alheia, e entre reconhecer-se como vítima ou como parte dessa sociedade; e os holandeses, estereotipados como liberais na esfera privada (no sentido norte-americano da palavra) e conservadores na pública.
O meu problema é menos essa forma do que aquilo a que ela auxilia ao argumento final do filme. O tipo-ideal é uma influência weberiana da qual é quase impossível escapar. E aqui, ele permite a realização de uma inversão simples e sedutora que promete resolver os problemas da intolerância.
Albert ter Heerdt acaba por prometer o fim dos conflitos que ele reconhece como inter-culturais através da conciliação individual. A tolerância ao diferente e a busca por compreendê-lo é a solução mágica que se impõe. O argumento despolitiza a xenofobia, ignora pelo menos dois séculos de história e se esquece de que por trás de tudo reside o fim do mito do pleno emprego e o desmonte do modelo do Estado de bem-estar social.
Por isso é que eu queria tanto ver os marroquinos na Holanda do ponto de vista de um diretor africano. Por mais boa vontade que se tenha -e esse é o caso do diretor-, o lado que não carrega a cruz sempre corre o risco de simplificar demais.
Fui seduzida pela sinopse, que apresentava o filme como "um olhar caleidoscópico sobre a Holanda nos dias atuais, um retrato espirituoso dos dilemas emocionais, medos, expectativas e mal-entendidos que existem numa sociedade multicultural".
A idéia do diretor era a de tratar os problemas que os imigrantes marroquinos enfrentam na Holanda. Conversando com a platéia -se é assim que devo chamá-la-, disse ter se inspirado em uma história real, na qual um diretor de um seriado da TV holandesa (que retratava a vida dos imigrantes marroquinos na Holanda), foi morto por um "fundamentalista islâmico" após dar uma declaração preconceituosa sobre os marroquinos à imprensa.
Apesar de retratar os problemas sócio-econômicos dos imigrantes, ao final da exibição, o que restou do filme foi a caricatura de dois mundos. Os marroquinos, divididos pela falsa dicotomia de preservar a sua cultura ou a alheia, e entre reconhecer-se como vítima ou como parte dessa sociedade; e os holandeses, estereotipados como liberais na esfera privada (no sentido norte-americano da palavra) e conservadores na pública.
O meu problema é menos essa forma do que aquilo a que ela auxilia ao argumento final do filme. O tipo-ideal é uma influência weberiana da qual é quase impossível escapar. E aqui, ele permite a realização de uma inversão simples e sedutora que promete resolver os problemas da intolerância.
Albert ter Heerdt acaba por prometer o fim dos conflitos que ele reconhece como inter-culturais através da conciliação individual. A tolerância ao diferente e a busca por compreendê-lo é a solução mágica que se impõe. O argumento despolitiza a xenofobia, ignora pelo menos dois séculos de história e se esquece de que por trás de tudo reside o fim do mito do pleno emprego e o desmonte do modelo do Estado de bem-estar social.
Por isso é que eu queria tanto ver os marroquinos na Holanda do ponto de vista de um diretor africano. Por mais boa vontade que se tenha -e esse é o caso do diretor-, o lado que não carrega a cruz sempre corre o risco de simplificar demais.

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