segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Daquele que vê, daquele que vive

Da seleção de filmes da 31º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os que eu mais queria ter visto eram os dos diretores africanos. Acabei abrindo a programação com "Pontapés", do simpático diretor holandês Albert ter Heerdt, que também assina o roteiro.
Fui seduzida pela sinopse, que apresentava o filme como "um olhar caleidoscópico sobre a Holanda nos dias atuais, um retrato espirituoso dos dilemas emocionais, medos, expectativas e mal-entendidos que existem numa sociedade multicultural".
A idéia do diretor era a de tratar os problemas que os imigrantes marroquinos enfrentam na Holanda. Conversando com a platéia -se é assim que devo chamá-la-, disse ter se inspirado em uma história real, na qual um diretor de um seriado da TV holandesa (que retratava a vida dos imigrantes marroquinos na Holanda), foi morto por um "fundamentalista islâmico" após dar uma declaração preconceituosa sobre os marroquinos à imprensa.
Apesar de retratar os problemas sócio-econômicos dos imigrantes, ao final da exibição, o que restou do filme foi a caricatura de dois mundos. Os marroquinos, divididos pela falsa dicotomia de preservar a sua cultura ou a alheia, e entre reconhecer-se como vítima ou como parte dessa sociedade; e os holandeses, estereotipados como liberais na esfera privada (no sentido norte-americano da palavra) e conservadores na pública.
O meu problema é menos essa forma do que aquilo a que ela auxilia ao argumento final do filme. O tipo-ideal é uma influência weberiana da qual é quase impossível escapar. E aqui, ele permite a realização de uma inversão simples e sedutora que promete resolver os problemas da intolerância.
Albert ter Heerdt acaba por prometer o fim dos conflitos que ele reconhece como inter-culturais através da conciliação individual. A tolerância ao diferente e a busca por compreendê-lo é a solução mágica que se impõe. O argumento despolitiza a xenofobia, ignora pelo menos dois séculos de história e se esquece de que por trás de tudo reside o fim do mito do pleno emprego e o desmonte do modelo do Estado de bem-estar social.
Por isso é que eu queria tanto ver os marroquinos na Holanda do ponto de vista de um diretor africano. Por mais boa vontade que se tenha -e esse é o caso do diretor-, o lado que não carrega a cruz sempre corre o risco de simplificar demais.

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